Texto de Patricia Oakim
O processo criativo de um artista costuma despertar nossa curiosidade. Seja uma pintura, uma escultura ou mesmo uma música, às vezes nos perguntamos como foram criadas. Há quem pense que o processo artístico é sempre fruto de inspiração, como se os artistas fossem tomados de repente por uma ideia para criar. Embora isso às vezes seja verdade, não é uma regra geral. Artistas experimentam. Testam. Tentam coisas novas. Alguns mantêm cadernos de esboços pessoais que nunca teremos a chance de ver. Colecionam ideias, versos, desenhos e muito mais. Seu processo criativo costuma ser uma jornada que combina a construção de um repertório artístico e o domínio de uma técnica.
Quando falamos de artes digitais, estamos falando também de software. No entanto, o software não costuma ser percebido como um meio artístico; ao contrário, às vezes é esquecido, mesmo com tantos artistas digitais trabalhando hoje com código-fonte, algoritmos e linguagens de programação. São os artistas-programadores. Para eles, as linguagens de programação são como pincéis e tintas. Embora programar seja comumente considerado uma atividade linear, em que programadores trabalham de forma estruturada rumo a um objetivo predefinido, os artistas-programadores em geral não trabalham assim. Eles criam software de modo iterativo: esboçam, visualizam os resultados e tentam de novo. Exploram as possibilidades do software sem necessariamente estabelecer metas. E, de vez em quando, um resultado inesperado pode se tornar um novo ponto de partida.
A arte feita com software levanta um debate sobre a automação do fazer artístico. Ela expõe uma tensão presente na relação criativa entre humano e máquina. Enquanto parte do processo é definida pelo artista, outra parte é executada de forma independente pelo computador. Na arte gerativa, em que parte das decisões é delegada ao software, é justamente essa relação entre artista e máquina que produz a arte. O artista-programador cria os conceitos e as regras para que o software possa criar a obra.
Gosto de pensar no software de arte digital como uma técnica que faz parte do nosso tempo e da nossa sociedade. Quando a tinta acrílica foi inventada, no século 20, ela não substituiu a tinta a óleo. Exige, inclusive, uma habilidade um pouco diferente. É possível criar uma pintura com qualquer uma das duas; ainda assim, as maneiras como o artista trabalha com cada meio e os resultados estéticos são diferentes. O mesmo vale para o software e as técnicas digitais, com linguagens de programação que geram resultados diferentes.
Embora as possibilidades intrínsecas do software estejam limitadas à tecnologia computacional disponível em nossa sociedade num dado momento, a criatividade em como usá-lo pertence aos artistas. São eles que escolhem o que vai acontecer: se vão delegar parte da produção ao computador, se uma função aleatória vai apontar para um caminho novo e inesperado ou se querem usar uma inteligência artificial para produzir uma imagem.
Monica Rizzolli é uma artista contemporânea que desafia nossa noção de processo criativo. Ela transita por diferentes mundos e os combina em seu trabalho para criar potência artística. Une arte e tecnologia, com domínio tanto das artes visuais quanto de técnicas digitais, como a programação de software ou a cunhagem de NFTs. Mas ela vai além, e em seu trabalho vemos isso de forma vigorosa: ela derruba as barreiras entre a arte digital e a analógica. É uma artista-programadora que começou seu percurso pintando e desenhando. E continua fazendo as duas coisas. Seus cadernos de esboços estão no papel e no software. Seus desenhos são feitos com nanquim e com Apple Pencil. Às vezes, ela escolhe o papel para experimentar uma forma de repetição visual. Outras vezes, usa a programação para explorar as possibilidades da arte gerativa e delegar algumas decisões ao computador. Ao usar essas diferentes técnicas, Monica percorre uma jornada criativa individual de tentativas e erros, de escolher e descartar, para finalmente, no fim, nos apresentar sua arte.
Neste livro-obra, porém, temos a possibilidade de participar do seu processo criativo. Monica nos convida a entrar e percorrer os diferentes caminhos possíveis na criação de uma obra de arte. Você, leitor, terá a oportunidade não só de testemunhar, mas de ser protagonista com ela na criação de arte gerativa. Nas páginas deste livro, você vai encontrar sequências de imagens e terá a opção de, em certos momentos, escolher como quer seguir. No formato de PDF interativo, você vai experimentar o processo artístico em tempo real, e suas escolhas vão gerar resultados visuais diferentes. Neste livro, você, leitor, junto com Monica e seu software, também será o artista.
Patricia Oakim é artista e pesquisadora de arte e tecnologia. Autora do livro Arte feita em código: um estudo de caso sobre a linguagem de programação Processing e sua utilização por artistas-programadores, é mestre pela NYU e pela PUC-SP.
Tradução livre do original em inglês.